Quem deve pagar para termos um bom sistema de transporte de público?

Licinio M. Rogério*

Há diversas respostas, mas começo com uma outra pergunta: Quem não costuma andar de transporte grátis quase todo dia? Transporte grátis “Ora (direis)! Certo, perdeste o senso!”, com a devida licença à Bilac, mas não perdi, não.

É que não estamos acostumados a reconhecer isso, mas a imensa maioria de nossa população usa isso todo dia e nem nota. Estou falando do elevador. Na verdade, ele não é grátis, pois alguém paga para comprá-lo e para mantê-lo, mas quem o utiliza não paga, por isso a sensação de ser “grátis”.

Quem só se desloca com seu transporte particular, ocupando grande parte das ruas, também deveria dar sua contribuição”

Todo esse rodeio foi para mostrar que podemos pensar em alternativas. No caso dos elevadores, suas despesas são assumidas pelo Condomínio e divididas por todos os seus condôminos, quer usem-no ou não.

Poderíamos estender esse raciocínio para a cidade ou para a Região Metropolitana, que assumiria esses custos e os ratearia por todos seus habitantes, segundo regras a serem estabelecidas, com cláusulas sociais justas, onde quem pode mais pagaria mais e quem pode menos pagaria menos.

Há diversas formas de se resolver isso, mas sempre com a intervenção governamental da Região Metropolitana, que deveria licitar o fornecimento de tantos carros (ônibus, trem, metrô, barcas e vans) para fazer tantas linhas num determinado horário, sempre privilegiando estudos sérios, que ouçam os principais interessados: nós, os usuários, quem temos esse direito já estabelecido pela Lei Federal de Mobilidade Urbana (12.587/12). Esses estudos também deveriam ouvir os Sindicatos dos trabalhadores na área e o dos empresários do setor, além dos demais interessados, sem esquecer o Ministério Público.

Na área de transportes já temos outras obras que são feitas pelos governos, em seus três níveis, que são pagas com nossos impostos, tipo construção de linhas do Metrô e a compra de seus carros; abertura e manutenção de ruas, avenidas, pontes, túneis e viadutos, que não importa onde moramos ou se os utilizamos. Algumas poucas vias são pedagiadas e todo mundo reclama de ter que pagar, sem se lembrar que já pagou, durante sua construção, uma boa parte através dos impostos.

Quem só se desloca com seu transporte particular, ocupando grande parte das ruas, também deveria dar sua contribuição, pois se a rua está aí, todos pagaram por ela e poucos a utiliza racionalmente. Aí diria um operador da área, enchendo a boca: Mas eu tenho um contrato que vigora até o ano 2 mil pica-pau!!!

Como estão todos pedindo socorro aos governos, por causa da pandemia e, em muitos casos, por não terem sabido se adequar aos novos tempos, mesmo antes da pandemia, estamos num bom momento para fazer o que o saudoso Mestre André da Mocidade fez muito bem, ao cair no meio da regência, olhar para o repique e comandar uma volta triunfal com todos tocando certo.

Que tal aproveitarmos o limão da pandemia para fazermos uma bela limonada?

* Licinio M. Rogério é  engenheiro, diretor de Mobilidade da Federação das Associações de Moradores do Município do Rio de Janeiro, coordenador do Fórum de Mobilidade Urbana, da Divisão de Transporte e Logística do Clube de Engenharia, e membro dos Conselhos Estadual e Municipal de Transportes

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