A Nova Fronteira: Brasileiros em Busca de Oportunidades no Paraguai
Bem-vindos ao Paraguai, repetia o chefe do serviço de imigração em Ciudad del Este enquanto caminhava entre cadeiras de praia, bancos de plástico e cangas. A mensagem era destinada a uma longa fila de brasileiros organizados, que se mantinham em silêncio, pontuado por aplausos, enquanto ouviam orientações em espanhol após um dia inteiro acampados sob o sol forte e no chão de terra vermelha. Era noite do penúltimo domingo de março, e apenas 12 horas separavam esse momento do início do mutirão itinerante do governo paraguaio para agilizar a emissão de documentos de residência. Ainda assim, a fila quase dobrava a esquina, com brasileiros enfrentando várias horas de calor, chuva e mosquitos para garantir atendimento no dia seguinte.
Entre os que aguardavam, Delly Fragola, de 55 anos, sorria enquanto se acomodava em uma cadeira de praia colorida, comprada para o espera. Dona de um salão de cabeleireiro em Anápolis, Goiás, ela e a filha chegaram às 8h. Sua motivação era encontrar novas oportunidades diante do que considera uma falta de perspectivas no Brasil, acreditando que no Paraguai poderiam encontrar mão de obra mais acessível e menos dificuldade para seus negócios. “No Brasil, ninguém quer trabalhar”, afirmou.
Mais atrás, Dilberto Wegrnen, de Cascavel, Paraná, desfrutava de uma cerveja e preparava carnes na churrasqueira improvisada, organizado por novos amigos de espera. Empresário de 63 anos, ele acredita que o Paraguai emergirá como uma potência na América Latina em breve, atraído pela menor carga tributária e leis trabalhistas mais acessíveis. Para ele, a grande fila é resultado dessa expectativa de crescimento.
Esse movimento de brasileiros querendo se mudar para o Paraguai vem crescendo, chamando a atenção das autoridades. O país tem promovido mutirões de emissão de documentos para acomodar essa demanda. Ciudad del Este, famosa pelo comércio barato e caótico, foi palco de pelo menos duas edições de mutirões em 2023, totalizando cerca de 4 mil atendimentos apenas na cidade, com planos de mais 19 ao longo do ano. Em 2025, o Paraguai concedeu mais de 40 mil autorizações de residência a estrangeiros, sendo mais da metade brasileiros. Para 2026, esse número já ultrapassou 9 mil.
A motivação dos brasileiros para imigrar inclui motivos políticos, econômicos e pessoais. Muitos viram na mudança uma oportunidade de fugir de uma crise no Brasil, alegando que a situação política e econômica do país torna inviável permanecer. Influenciados por vídeos e redes sociais que destacam as vantagens fiscais, facilidade de obtenção de documentos e estabilidade política, pessoas de diversas regiões do Brasil planejam a mudança. Marcelo Mendes, arquiteto aposentado de Recife, decidió vender sua casa e se mudar para Encarnación, na fronteira com a Argentina, com esperança de uma vida com menos impostos e mais qualidade de vida.
Outros, como Zena Cheraze, de 68 anos, percorreram longas distâncias sozinhas, guiadas por propagandas e buscando acesso a um sistema de saúde mais acessível. Ela relaciona sua decisão à sensação de opressão política, alegando que o atual governo brasileiro limita suas liberdades e representa o oposto de um regime de liberdade.
O perfil dos migrantes também inclui aposentados, empresários e famílias que buscam melhores condições de educação, como é o caso de Marluize Ávila, que pretende educar seus filhos em casa – uma prática comum entre aqueles que veem no Paraguai um ambiente mais flexível. A legislação local não é clara oficialmente sobre o homeschooling, mas muitos acreditam que a prática é permitida.
A busca por um sistema tributário mais vantajoso motiva muitos brasileiros a se mudarem. O sistema tributário paraguaio é notoriamente mais simples e com alíquotas menores, totalizando cerca de 14,5% do PIB comparado aos 32% do Brasil. O esquema de impostos no Paraguai é baseado na regra “10-10-10”, uma taxa de 10% sobre o imposto de renda, o IVA e as empresas, enquanto no Brasil as alíquotas são mais elevadas e complexas. Além disso, o país oferece incentivos fiscais para atrair investimentos e empresas, além de um sistema de incentivos para a indústria, conhecido como “maquila”, que permite importações quase sem impostos para a produção local.
Apesar dos atrativos, especialistas alertam que a sustentabilidade desse modelo é questionável. O Paraguai possui um sistema de saúde público fragmentado, e muitos dependem de serviços privados, tangenciando o que seria um sistema de assistência social mais limitado. A informalidade do emprego, baixa arrecadação tributária e déficits em infraestrutura são fatores que podem limitar o crescimento sustentável. Ainda assim, para muitos brasileiros, o desejo de escapar da crise do Brasil justifica a permanência no país vizinho.
Muitos imigrantes planejam permanecer por anos, enquanto outros apenas buscam uma alternativa temporária, com a possibilidade de retorno. Há também quem não tenha certeza sobre o futuro, mas se mantenha convencido de que o custo de vida mais baixo e a menor carga tributária justificam a decisão. Assim, o Paraguai se apresenta como um destino atrativo para uma nova onda de brasileiros, que veem nele uma oportunidade de promover mudanças pessoais e econômicas, muitas vezes alinhadas com suas visões políticas de direita ou conservadora.
