Usuários dos transportes são afetados pela violência

O Rio é definitivamente uma cidade partida, como dizia o saudoso jornalista Zuenir Ventura. É a bolha da Zona Sul e o mar de habitantes que residem nas zonas Norte, Oeste e Sudoeste. Entre ambos há um muro de balas de fogo. Os confrontos em comunidades do Rio afetam quem precisa se deslocar pela Cidade. Os passageiros e motoristas sob o fogo cruzado, muitas vezes, são baleados. Os ônibus são alvejados, as rotas são desviadas e os coletivos são sequestrados para servir de barricadas. Nos trens, os passageiros são obrigados a se deitar no chão dos vagões.

Bem, isso não chega a ser novidade. E pior: quanto mais a demografia, migração e urbicídio aumentam, e as verbas para  o efetivo policial inteligência e tecnologia são insuficientes, as melhoras eventualmente obtidas perdem importância relativa.

Exemplos do horror nosso de cada dia não faltam. Recentemente, durante operação policial, no Morro Dona Marta, um passageiro foi atingido por um tiro na perna dentro de um ônibus que transitava pela Rua São Clemente, em Botafogo. No bairro de Vigário Geral e na Avenida Brasil, as disputas entre facções ou operações policiais resultaram em ônibus furados por balas e pânico nas imediações das estações de trens. Nas comunidades de Rio das Pedras e Cidade de Deus, o trajeto das linhas precisou ser desviado, além de os ônibus serem usados como barricadas para impedir o avanço das forças da Polícia Militar.

Parecem cenas de um teatro de guerra, mas são apenas apenas alguns capítulos da novela de horror das 24 horas no Rio. A cidade, coitada, cuja natureza não tem nada a ver com isso, continua linda.

Sim, linda, mas com os olhos do seu protetor, o Cristo que nos olha de cima do Corcovado, marejados com a dor dos seus filhos. O pesadelo dos passageiros são os roubos a ônibus, que segundo levantamento se concentram no Centro e bairros que cortam a Avenida Brasil. Pavuna, com 419 casos, é o primeiro colocado, seguido de Bonsucesso, com 258, e em terceiro lugar o Centro, com 233 casos. Os dados são de 2024.

A Prefeitura não assume sua responsabilidade. E quando há alguma vigilância ou repressão são em número insuficiente. Há uma expectativa que o problema aumente em função de uma curiosa contradição. O emprego formal é informal, vem aumentando, mensalmente há muitos meses. Uma das resultantes é a necessidade de maior mobilidade urbana. Mais gente usando os modais de transporte, mais segurança será necessária. Pergunta-se: a Prefeitura está pensando nisso, que será um movimento estrutural até as eleições, no mínimo? Até agora nem um pio.

Para não dizer que tudo são pedras no caminho e há algumas frestas de luz. Como resposta a esses delitos, a Prefeitura criou a Força Municipal, que em menos de quatro meses de patrulhamento, registrou mais de 817 prisões e 6,6 mil abordagens. Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP) houve redução de 41% de roubos e furtos em relação ao mesmo período do ano passado. É bem verdade que a comparaçao foi feita sob uma base baixa, um recorte de gente sofrida que aprendeu a ficar de bico calado, amedrontada. A iniciativa é bem-vinda, mas até agora não tem sido suficiente para conter a violência sofrida diariamente pelos usuários dos transportes públicos, que não têm paz nessa Cidade. Nas sondagens de Estação Rio quase ninguém quer falar sob segurança se identificando.

Não bastasse a violência explícita há incompetência operacional. São as falhas do sistema de bilhetagem, que não cospem balas, mas furtam o passageiro com um modus operandi que deixa muito a desejar.  Criminosos têm se passado por funcionários do Jaé para aplicar golpes em residências. Um caso grave foi registrado em Irajá, Zona Norte, quando uma idosa de 71 anos foi agredida fisicamente por uma mulher que invadiu sua casa sob o pretexto de entregar o cartão do sistema.

Filas enormes, clonagem de cartões e irregularidades nos postos de atendimento – inclusive com as operações já multadas pelo pelo Procon e Sedcon. Só resta torcer. Ou rezar, tendo em vista a performance da nova bilhetagem.

Foto: Divulgação/Passageiro atingido dentro do ônibus durante confronto no Morro Dona Marta. 

Editorial Estação Rio.

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