Editorial: A caixa-preta do Jaé não tem fundo

Até quando a Prefeitura do Rio vai fingir que não enxerga o paradoxo que ela própria criou? O Jaé nasceu indexado às juras do então prefeito Eduardo Paes de acabar com o que chamava de “caixa-preta” da bilhetagem dos transportes públicos. Hoje se vê que o repetido uso da expressão, na verdade, antecipava o que estava por vir. A única caixa-preta na mobilidade urbana do Rio atende pelo nome de Jaé. Os eventos desta semana na Câmara Municipal apenas confirmam o que este portal vem denunciando reiteradamente em reportagens e editoriais anteriores.

O alerta da vez sobre a obscura operação de bilhetagem eletrônica no município partiu do próprio setor de transportes. “Onde está o dinheiro arrecadado pelo Jaé?”, perguntaram, uníssonos, os permissionários de vans em audiência na Câmara. Responsáveis por transportar diariamente mais de 500 mil passageiros, os motoristas cobram da Prefeitura explicações sobre o itinerário do dinheiro arrecadado pelo sistema de bilhetagem. Por ora, eles sabem apenas para onde os recursos não vão. A Prefeitura não destina sequer um centavo para apoiar os donos de vans a renovar a frota.
O prefeito Eduardo Cavaliere e seus assessores usam e abusam de discursos diversionistas. Acenam aos permissionários com novos estudos, revisão da legislação e a possibilidade de um futuro modelo de remuneração por quilômetro rodado. Até agora, no entanto, o que dizem não se escreve. Aos motoristas de vans e seu justo pleito a Prefeitura responde com promessas vãs. E parece decidida a dobrar a aposta: já anunciou que não direcionará qualquer subsídio para os motoristas do modal em 2026. Ou seja: o sucateamento da frota tende a se agravar. E quem paga por isso é a população.

A caixa-preta do Jaé quase não fecha mais de tantas perguntas sem resposta. Quem recebe os recursos da bilhetagem? Qual é o valor? Quais critérios são utilizados? Qual é o custo de operação do sistema? Quanto fica com a empresa gestora? Quem fiscaliza esse fluxo financeiro? A criação de uma comissão pela Câmara Municipal demonstra que a desconfiança não está apenas no usuário do transporte público e nos prestadores de serviço. É o próprio Poder Legislativo, representante do povo, que cobra explicações sobre a arrecadação e a distribuição dos recursos do Jaé. A iniciativa parlamentar é um atestado do fracasso dos mecanismos ordinários de controle. Informações que deveriam estar disponíveis espontaneamente terão de ser arrancadas da Prefeitura por meio da pressão política e institucional.

A Secretaria Municipal de Transportes precisa urgentemente abrir a caixa-preta do Jaé, sob o risco de levantar contra si desairosas ilações. A população do Rio tem o direito de conhecer, em detalhes, quanto o sistema de bilhetagem eletrônica da cidade arrecada, para onde vai cada real pago pelos passageiros, quais operadores recebem recursos, quais parâmetros orientam essa distribuição e quanto custa manter toda essa engrenagem funcionando.

Como se não bastassem todas as controvérsias e suspeições que pairam sobre o Jaé e os inúmeros problemas operacionais no sistema de bilhetagem, há ainda uma Prefeitura que, por omissão ou qualquer outro motivo insondável, contribui para apagar o rastro do dinheiro. Trata-se de uma caixa preta sem fundo.

Editorial Estação Rio

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