Os passageiros dos trens sofrem com interrupções frequentes na circulação das composições. Devido à violência, só em março deste ano, 26 viagens foram canceladas ou interrompidas. A linha férrea passa às margens de 179 comunidades controladas por traficantes ou milicianos. Das 104 estações, 14 sofrem influência direta do crime organizado O sucateamento da frota e o roubo de cabos também contribuem para falhas na operação.
A crise no sistema ferroviário se agrava com as dívidas deixadas pela SuperVia, que administrou o serviço por 27 anos. Na fila de credores estão empresas responsáveis por fabricação de peças, restauração de vagões, sinalização, bilhetagem eletrônica e gestão de pessoal de apoio e segurança. Se o débito não for saldado, a qualidade do serviço será afetada.
No meio desse imbróglio estão os usuários, que pagam uma tarifa cara de R$ 7,90, para passar perrengues, quase diários, como o da última terça-feira (18/08) em que uma composição parou entre as estações Realengo e Magalhães Bastos, obrigando os passageiros a desembarcar e caminhar pela linha férrea até a estação.
Um trajeto arriscado pelos trilhos, cheio de mato e pedras, que poderia causar acidentes como quedas e até atropelamentos – no trecho onde ocorreu a falha outros trens não pararam de circular – . Só houve restrição de velocidade.
Com a saída da SuperVia, em maio deste ano, o serviço de trens urbanos passou a ser administrado pela marca TrensRJ, gerida pelo consórcio Nova Via Mobilidade. Os novos gestores contrataram a Companhia Paulista de Trens Urbanos (CPTM) para fazer um diagnóstico sobre as condições da malha ferroviária.
O resultado parcial do levantamento, que começou em junho, com o prazo de conclusão de 60 dias, aponta problemas graves. Por exemplo, a Trens-RJ tem à disposição uma frota menor do que a utilizada pela SuperVia. Enquanto a antiga concessionária chegou a operar com 201 trens, a atual dispõe de apenas 143, devido à retirada de circulação de 48 trens obsoletos ou inservíveis.
Outra questão que deve ser enfrentada pela nova operadora é a grande quantidade de lixo ao longo dos 270 quilômetros da malha ferroviária, incluindo carcaças de veículos abandonadas por criminosos, sofás velhos, televisores, entulho de obra.
Há estações sem rampas, elevadores ou escadas rolantes, sem acessibilidade para cadeirantes ou pessoas com mobilidade reduzida. Além disso, algumas dessas escadas rolantes estão quebradas. O orçamento para fazer o reparo hoje é de R$ 1,8 milhão.
Segundo levantamento feito pela TrensRJ, de R$ 7 milhões a R$ 8 milhões são gastos mensalmente com serviços de vigilância para impedir furtos de cabos, principalmente, nas subestações de energia. O valor também inclui o custeio de equipes de apoio responsáveis por prestar informações aos passageiros nas estações de embarque.
Por nota, a TrensRJ confirmou a realização do estudo técnico, que, segundo eles, servirá de base para o planejamento das intervenções necessárias em todo o sistema. “Paralelamente, a TrensRJ atua continuamente na execução dos serviços de manutenção que estão sob sua responsabilidade, promovendo reparos e melhorias operacionais para aumentar a segurança, a confiabilidade e a qualidade do atendimento aos passageiros”, diz o trecho da nota.
Sem planejamento e investimentos no sistema ferroviário, não haverá luz no fim do túnel.



