Redução da frota acarretará demissões de rodoviários

A pandemia do Covid-19 acelerou a crise do transporte público por ônibus no estado do Rio de Janeiro. Reitero: acelerou, pois ela já vinha se desdobrando há, pelo menos, duas décadas. Em todo esse tempo, assistimos empresas encolherem ou fecharem, com seu faturamento minguando na medida em que o deserto das políticas públicas avançava sobre o mínimo território fértil que elas dispunham. Por consequência, essa rachadura na estrutura do setor também engoliu os rodoviários. Em nossa base, por exemplo, já contabilizamos 45 mil empregos com carteira assinada. Hoje, mal passamos dos 15 mil.

Como tudo que redunda em fracasso no Brasil, há várias explicações para o que levou a situação a chegar aonde chegou. Podemos enumerar vários: a falta de fiscalização no setor, que permitiu a ascensão do transporte ilegal ou simplesmente do não regulamentado, como é o caso dos aplicativos; o populismo equivocado, que, por razões eleitoreiras, distribuiu gratuidades que, quase que imediatamente, o poder público não conseguiu – ou não quis – cumprir, com o devido ressarcimento às empresas; ou mesmo a infinita capacidade nacional de transferir problemas, pois, no caso dos ônibus, criou-se um sistema com um determinado tipo de financiamento, no caso o pagamento das passagens pelos usuários, e, pronto, achou-se que estava tudo resolvido.

Infelizmente ou felizmente, entre o delírio político e a realidade econômica há um enorme abismo. Parlamentares ou governantes eleitos em boa parte do País não perceberam, em sua segmentação social por currais eleitorais, que o transporte público é tão importante para a população produtiva, que, se quisessem, de fato, beneficiar os cidadãos, o financiamento unicamente pelas passagens nunca deveria ter sido adotado.

Com a disparada dos preços do óleo diesel, a categoria teme que venha, em seguida, nesse lento e agonizante desmoronar do transporte público, um processo de demissões em massa, que representa a segunda etapa do colapso no sistema, sendo a primeira a redução da frota em operação,”

 

Uma prova dessa lógica está no próprio valor das passagens, que, em nossa base, não é reajustado há três anos. Na medida em que se aumenta o custo e diminui-se a receita, o preço de qualquer produto irá ficar mais caro. Isso vale para uma maçã, um telefone celular ou um guindaste. No transporte público por ônibus, no entanto, cuja arrecadação tem, em tese, a mesma origem das mercadorias descritas acima, ou seja, alguém que pague por elas, há pressões da Justiça, do Ministério Público, dos governos e dos legislativos para que as companhias operem a baixo custo para o consumidor, oferecendo um serviço de excelência. Isso é hipocrisia, é irreal.

Com a disparada dos preços do óleo diesel, que se tornou o principal custo operacional das empresas, a categoria teme que venha, em seguida, nesse lento e agonizante desmoronar do transporte público brasileiro, um processo de demissões em massa, que representa a segunda etapa do colapso no sistema, sendo a primeira a redução da frota em operação, já anunciada pelas viações. O desfecho final é, invariavelmente, a falência das empresas, o desemprego em larga escala e o caos da criminalidade.

Não se enganem, quando as companhias, constituídas legalmente através de processos de licitação, saírem de cena, serão substituídas por grupos criminosos, que tentam constantemente voltar a ocupar seu lugar através do chamado transporte alternativo, na terrível relação espaço vago X espaço ocupado.

Por fim, em novembro, haverá o dissídio da categoria. As perdas reais dos trabalhadores se acumulam a cada ano. Como serão efetivadas essas negociações para reposição dos danos financeiros, que os rodoviários sofreram? Essa relação entre passagens e custo operacional das empresas é extremamente danosa aos trabalhadores, que enfrentam grandes dificuldades quando vão negociar seus salários.

Se essa escalada prosseguir, vemos um cenário totalmente instável pela frente, que, invariavelmente, provocará mais males aos trabalhadores e atingirá a população em um setor, que a própria Constituição Federal considera essencial, como a Saúde e a Educação, tendo, portanto, que ser assegurado pelos governos. Porque, então, o transporte público tem sido abandonado sistematicamente ao longo dos anos? A quem interessa sua falência?

*Rubens dos Santos Oliveira, presidente do Sindicato dos Rodoviários de Niterói a Arraial do Cabo (Sintronac).

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