Atuação da milícia agrava crise nos transportes de ônibus

A concorrência desleal das linhas clandestinas na Zona Oeste, administradas por milicianos, está levando as empresas de ônibus à falência piorando ainda mais as condições do transporte público na região. Para o professor de sociologia da UFFRJ, José Cláudio Souza Alves, a partir do controle militarizado da região, a milícia impede a concorrência, se colocando como monopólio. “Tanto é que, na Zona Oeste, pelo menos duas empresas de ônibus faliram, e 2.800 profissionais que trabalhavam nessas viações foram demitidos.” Desde 2014, cinco empresas quebraram: Andorinha; Bangu; Rio Rotas, Top Rio e Algarve.

José Cláudio estuda as milícias desde a sua formação, destaca que esses grupos movimentam grandes quantias de dinheiro com o comando dos transportes na Zona Oeste, se fortalecem e consolidam seu poder. “Com essa grana, financiam os interesses políticos deles, financiam candidatos que apoiam a proposta deles, compram armamentos, submetem mais ainda a população à sua lógica de terror e monopólio”, analisa o autor do livro “Dos barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense”.

Os paramilitares lançam mão da estrutura da violência e da rede de informações que possuem para ameaçar grupos rivais, impedindo que concorrentes ou grupos que tentem se contrapor aos interesses deles montem os seus negócios nas áreas sob seu comando. “É o que estão fazendo com as empresas de ônibus. Os milicianos também passam a ameaçar os motoristas dos coletivos e funcionários dessas empresas”, relata José Cláudio.

Um drama para os trabalhadores

Os rodoviários acabam sendo mais uma vítima dessa situação. Eles desenvolvem doenças psicoemocionais, que vão afetar o desempenho deles. “Esses motoristas correm risco de morte, ameaçados por milicianos na rua com fuzis, além de dirigir e cobrar a passagem ao mesmo tempo, o que já eleva o estresse ao máximo”, revela.

Os profissionais relatam que são ameaçados à luz do dia, e essa situação se repete em vários bairros, como Campo Grande, Avenida Brasil, Madureira, Santa Cruz, Jacarepaguá e Barra da Tijuca. “O problema é visível, mas o poder público ignora”, disse um motorista que não quis se identificar.

Segundo o profissional, nos horários de maior movimento aumenta o número de vans, que ficam estacionadas nas baias dos pontos de ônibus à espera de passageiros, impedindo o embarque e desembarque dos passageiros nos coletivos. Ele disse ainda que os rodoviários trabalham com medo da milícia. “Somos obrigados a dirigir sem ultrapassar os motoristas das vans e kombis, que têm prioridade para pegar os passageiros, e fazem o mesmo itinerário dos ônibus.”

Os rodoviários ficam em um beco sem saída. Se não obedecerem as ordens dos milicianos, são agredidos fisicamente, “levam uma surra”. Se pararem os veículos longe da calçada, são multados pelos guardas municipais. Como são obrigados a deixar os passageiros para as vans, circulam com os coletivos vazios. 

Passageiros coagidos

Os usuários do transporte também não têm escolha. São coagidos a embarcar nas vans. Quem se recusa ouve xingamentos. “Minha mulher não quis pegar a van e foi xingada pelo motorista que não queria deixá-la pegar o ônibus”, contou o rodoviário.

O motorista que concordou em falar para nossa reportagem comentou que é procurado constantemente pela mídia, mas que se recusa a dar entrevista. “Se eu for identificado terei de sumir do Rio de Janeiro, fazer um buraco e morar nele”, destaca.

Enquanto isso, a população está entregue, à mercê da milícia. Para o professor Luiz Cláudio, não adianta fazer o discurso de que a própria polícia faz operações constantemente, ou dizer que a população é conivente e cúmplice do crime, porque não denuncia. “Ninguém nessa situação vai denunciar. Ainda mais com a possibilidade de, quando chegar à delegacia, encontrar um miliciano responsável pelas investigações. Isso é suicídio e ninguém vai se suicidar”, ressalta.

A milícia se fortaleceu pela falta de fiscalização e cresceu sem ter ninguém que lhe impusesse limites. “Se a milícia é composta por policiais civis e militares, bombeiros e outros agentes de segurança, não vão fiscalizar eles próprios. Ao contrário, vão se valer do poder que o estado lhes dá como representantes e a partir daí vão se impor mais ainda”, argumenta o professor.

Foto: Divulgação 

Na semana que vem: As empresas de ônibus contra-atacam

Um comentário em “Atuação da milícia agrava crise nos transportes de ônibus

  • 11 de março de 2020 em 13:58
    Permalink

    A população é conivente, porque não tem outra opção! Se não pegar a van, não tem transporte. E existem linhas na Zona Oeste que não existem nem nas vans. As opções são escassas.

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